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Cultura

Vitrine de Paraty, Flip pode atrair até 20 mil pessoas para a cidade

23/07/2018 10:59:11

A Festa Literária Internacional de Paraty  (Flip) começa nesta quarta-feira e, pela 16ª vez, a cidade vai ver seus restaurantes, hotéis e ruas cheias de leitores, escritores, críticos literários e outros trabalhadores da indústria do livro. Se o calendário da cidade já inclui festas que atraem mais público ou mais dinheiro que a Flip, nenhuma gera tanta divulgação para a cidade litorânea do Sul Fluminense, onde o turismo ocupa uma fatia de 70% a 80% da economia.

O prefeito Casé Miranda acredita que mesmo que o Festival da Cachaça ou a Festa do Divino concentrem mais visitantes, não há como comparar a divulgação que a festa literária produz."A gente tem muito a agradecer por essa visibilidade. Isso também é uma questão econômica, uma mídia espontânea que a gente não tem nem como mensurar o tamanho do valor", diz o prefeito, ao lembrar que a cidade tem mais de um século de tradição na realização de eventos. "A Flip veio ser a joia da coroa. É um evento importante, de grande visibilidade nacional e até fora do Brasil e veio para melhorar a qualidade de todos os eventos em Paraty".

Para 2018, a expectativa de Paraty é que entre 15 e 20 mil pessoas visitem a cidade para participar da festa. O Festival da Cachaça, que ocorre este ano entre 16 e 19 de agosto, chega a concentrar o dobro disso, segundo o prefeito, mas o perfil do turista que chega com a Flip é de um poder aquisitivo muito maior.

Presidente do polo gastronômico da cidade, Edson Moura conta que a expectativa do setor é dobrar seu faturamento normal nos dias da Flip. Dono de um restaurante no centro histórico, o empresário vai pagar horas extras a seus profissionais para estender o horário e reforçar a equipe para atender à demanda.

"O público do Festival da Cachaça é mais regional, das cidades vizinhas como Angra e Ubatuba. É um público que vem para beber a cachaça e ir embora. O público da Flip vem para usufruir de toda a oferta turística de Paraty".

Neste ano, o restaurante de Edson vai fazer parte de um circuito gastronômico e literário, em que o cardápio incluirá pratos típicos de outras nacionalidades acompanhados de obras de autores desses países. Ele conta que os restaurantes estão se organizando para atrair o público no contexto de economia desaquecida e crise.

"Estamos pensando em promoções e praticamente não houve aumento de preço. Outro meio que estamos buscando é fazer parcerias com as secretarias de Cultura e de Turismo".

Há alguns anos, a movimentação trazida pela Flip gerou uma programação paralela que toma conta de casarões de Paraty com discussões e festas que passaram a ser conhecidas como Off-Flip. Em 2018, parte dessa programação é considerada parceira do evento, que terá um número recorde de espaços alternativos de discussão da literatura. A curadora da Flip, Josélia Aguiar, conta que o recorde de 20 casas parceiras é positivo e que muitas vezes os assuntos das mesas principais ganham desdobramentos interessante nos palcos alternativos.

"O crescimento dessas casas parcerias potencializa muito a Flip. Quanto mais casas parceiras e programações, melhor, porque a Flip acaba se transformando em um grande happening [acontecimento]. Um lugar onde todo mundo vai querer estar".

A visibilidade que a Flip atrai também é uma oportunidade para que reivindicações sociais busquem espaço. Integrante do grupo caiçara Trindade Vive e do Movimento Jovem Bom é Jovem Vivo, Davi Paiva participou do Ocupa Flip, há dois anos, quando uma manifestação percorreu ruas da cidade e cartazes foram expostos no Centro Histórico para denunciar episódios de violência e o homicídio.

Neste ano, o grupo busca uma forma de pautar a discussão da segurança pública na cidade e fez um levantamento de homicídios que aponta um crescimento de 130% nos últimos dez anos. Desde 2014, a cidade de 40 mil habitantes teve em média 30 homicídios por ano e, grande parte das vítimas são jovens de 18 a 29 anos.

"É um problema que era mais localizado em dois bairros e hoje a gente vê ocorrendo também nas comunidades tradicionais", conta Davi, que pede atenção das autoridades para a segurança em Paraty. "Nossa expectativa é meio decepcionante, porque é tentar de alguma forma mostrar um pouco do que está acontecendo em Paraty".

A segurança também está no radar da prefeitura, e Casé Miranda afirma que vem conversando com o comandante do Batalhão de Polícia Militar da área e com o delegado titular da delegacia de Polícia Civil. Neste ano, guardas municipais devem policiar o centro histórico de moto para melhorar a movimentação nas ruas da cidade, que tem um calçamento de pedra bastante irregular.

Homenagem a Marielle Franco

Na próxima sexta-feira, dia 27, quando completaria 39 anos, a vereadora Marielle Franco (PSOL) será homenageada na programação da Flip, na Casa Libre & Nuvem de Livros, da Liga Brasileira de Editoras (Libre). A homenagem, chamada Vozes que Não Podem se Calar, recordará também Carolina de Jesus, autora da consagrada obra Quarto de Despejo, e terá a presença da escritora Conceição Evaristo, outro importante nome da literaura e do movimento negro no Brasil.

Marielle e o motorista Anderson Gomes foram assassinados em 14 de março deste ano, após saírem de um evento no centro do Rio e serem seguidos por ocupantes de um carro que atiraram diversas vezes. A Polícia Civil do Rio de Janeiro investiga o caso, que permanece sob sigilo.

Presidente da Liga Brasileira de Editoras, Raquel Menezes conta que a ideia de homenagear Marielle ao lado das duas grandes autoras negras surgiu pela constatação de que a leitura é capaz de transformar a realidade e a vida das pessoas, produzindo um efeito multiplicador.

"A gente está sempre acostumado a círculos viciosos ruins, e é muito bom quando se depara com um bom, quando mulheres têm a vida mudada pela leitura e mudam a vida de pessoas pela leitura. A Carolina [de Jesus], pela sua obra, a Conceição, pela sua obra e pelo que representa para o movimento negro, e a Marielle, pelo trabalho que desenvolveu para que mais pessoas lessem", diz Raquel.

"São vozes que não vão se calar porque repercutem e favorecem um empoderamento tanto feminino quanto negro e de questões sociais", enfatiza.

A professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Janaína Damasceno, que será uma das debatedoras na Flip, afirma que o uso da palavra para transformar a realidade é algo em comum entre a vereadora e as duas autoras negras. "A política é o domínio das palavras", compara Janaína. (Reportagem e foto: Agência Brasil)

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