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Cultura

Por ‘tour da escravidão’, fazenda de Vassouras é alvo de polêmica

08/12/2016 18:19:10

Construída nos anos 1830, a Fazenda Santa Eufrásia, em Vassouras, se tornou alvo de uma polêmica por usar o período da escravidão para atrair turistas. O assunto, tratado originalmente pelo Uol, no início da semana, teve repercussão em outros sites na internet e já teve desdobramentos, entre eles a retirada da fazenda do Mapa da Cultura do governo do estado do Rio de Janeiro.  O título da reportagem: “Tour racista: Fazenda faz funcionários atuarem como escravos e é detonada”.

Mas podem vir outros: o presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) do Rio de Janeiro, Marcelo Dias, condenou o que classificou de “turismo de terror” e anunciou a intenção de processar a proprietária pelo crime de racismo, se prontificando ainda a mobilizar o Ministério Público e o Poder Judiciário.

- Queremos organizar uma manifestação na frente da fazenda - acrescentou.

Única fazenda particular tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Rio de Janeiro (Iphan-RJ), a Santa Eufrásia passou a atrair visitantes para passeios (que custam entre R$ 45 e R$ 65) onde são recebidos pela proprietária, Elizabeth Dolson, com trajes de “sinhá”, enquanto seus empregados se vestem como escravos. São eles que servem os turistas. Questionada sobre a “atração” incentivar o racismo, ignorando um dos períodos mais violentos da história do Brasil, a herdeira da fazenda deu ao Uol uma declaração que incendiou ainda mais a polêmica:

- Não tem nada de racismo. Tem mucamo branco, preto, gente de tudo quanto é cor. As pessoas veem as minhas mucamas e tem uns que dizem “olha, gostei tanto que dei um trocadinho para elas” – afirmou.

No “The Intercept”, site mantido no Brasil pelo jornalista americano Glenn Greenwald (ganhador de um Prêmio Pulitzer) , a jornalista Cecília Oliveira, após participar de uma visita, escreveu que o Vale do Café, onde se situa a fazenda, tem um histórico particular de selvageria contra negros feitos escravos.

- Tanto que, em 1829, o então fiscal da Vila de Valença (hoje Valença, município vizinho a Vassouras), Eleutério Delfim da Silva, demonstrou preocupação com os “castigos brutais que os escravos daquela Vila recebiam”, fazendo inclusive uma representação à Câmara expondo tais brutalidades. Mas isso parece não ser uma questão relevante para quem explora o potencial turístico da região – ressaltou, questionando:  “As pessoas que passam um dia descontraído nessas senzalas e casas grandes teriam coragem de pegar um trem na Polônia, rumo a Auschwitz, dividindo o assento com atores judeus sorridentes fantasiados de seus ancestrais?”.

 Por ‘tour da escravidão’, fazenda de Vassouras é alvo de polêmica

A publicação resultou numa nota de esclarecimento da Fazenda Santa Eufrásia em sua página na internet.  “Em seu artigo, a jornalista teve uma percepção incomum acerca das experiências relatadas pelos milhares de visitantes que por aqui passam, fruto de um trabalho responsável e feito de maneira coletiva há anos na região, visando o resgate da história e da cultura do Vale do Café”.

Na nota, a fazenda lembra que a região que foi o centro da economia no século 19, sendo a maior produtora de café do país. “O lado triste dessa história é que toda riqueza desse tempo foi construída com base no trabalho escravo, de um povo sofrido, que teve sua vida reduzida a horas e horas de esforço, castigos e poucos momentos de descanso”, acrescenta.

Segundo a direção da fazenda, a recepção feita na Santa Eufrásia “é o retrato de uma época, que se materializa a partir da encenação teatral com elementos da cultura, das danças, da música, das vivências e do relato de histórias que não podem ser esquecidas. A história contada de forma lúdica leva os visitantes a refletirem sobre a época em todos os aspectos, e a experiência vivida desperta diversas emoções. Esse é um dos princípios do turismo de experiência e lamentamos que apenas aspectos negativos possam ter sido sentidos e relatados pela autora da matéria”.

A nota diz ainda que “essa imagem errônea denigre o trabalho de mais de 15 anos que vem sendo desenvolvido como parte do fortalecimento do turismo regional, oferecendo uma reflexão social a partir da experiência turística que, dentre diversas potencialidades, também cria oportunidades em seu entorno, fomentando a economia criativa”. (fotos: Divulgação)

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