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Entre muros e grades, uma porta de esperança

05/12/2019 17:30:33

FERNANDO PEDROSA

Paulo (nome fictício) tem 17 anos, é de Três Rios e, no próximo dia 25, em vez de passar o Natal em casa com a família, estará completando três meses de internação no Degase de Volta Redonda. Cumprindo medida socioeducativa determinada pela Justiça por tráfico de drogas, ele está na expectativa do nascimento da filha, previsto para a primeira quinzena de janeiro próximo.

- Entrei nesta por sem-vergonhice. Quando sair, quero continuar estudando. Gostaria de ser veterinário – conta o adolescente que, ao ser apreendido, estava fora da escola havia um ano. Abandonou os estudos na 7ª série e trabalhava com o pai quando se envolveu com traficantes. Atualmente, Paulo é um dos 140 internos que frequentam as aulas na Escola Estadual Irmã Terezinha de Barros, que funciona dentro do Degase (Departamento Geral de Ações Socioeducativas), no bairro Roma. Sim, leitor, provavelmente você não sabia, mas a unidade – como todas as outras do departamento – conta com uma escola e frequentar as aulas é condição geral nas medidas judiciais impostas aos internos.

Nesta quinta-feira, na quadra esportiva do Degase, a escola realizou sua 6ª Feira Cultural. Os adolescentes expuseram trabalhos feitos em sala de aula, tendo como temas, este ano, o meio ambiente e a diversidade brasileira. Vários chamaram a atenção por mostrarem que há, entre os internos, muitos com capacidade para desenvolver talentos que nada têm a ver com a criminalidade.

Oportunidade também de conhecer um pouco e valorizar mais o trabalho daqueles que se dispõem a ensinar numa comunidade cercada de muros e grades, sem se deixarem contaminar pela sensação de que estão enxugando gelo.

- Os temas de cada feira são propostos pelos professores e desenvolvidos nas salas de aula – explica a diretora Vanessa Maciel, no cargo desde 2015, e que logo trata de afastar a ideia, aparentemente óbvia, de que lecionar no Degase – que só vira notícia em casos de rebelião – é lidar com uma rotina de tensão por indisciplinas. “Dentro da sala de aula é muito diferente. Eles têm muito respeito pelos professores. Não temos problemas”, assegura.

Entre muros e grades, uma porta de esperança

Ela não esconde, porém, que – a exemplo do que ocorre nos alojamentos –, os internos se agrupam conforme as facções às quais dizem pertencer. Dentro da unidade, funciona um programa para quem é "faccionado", cujo objetivo é tirar o adolescente das facções criminosas. 

Escolas que funcionam dentro das unidades do Degase, como a Terezinha Barros, é claro, não seguem a mesma pedagogia das demais da rede estadual. Os alunos têm a partir de 14 anos e, dependendo da medida imposta pelo juiz, podem ficar na escola até os 21 anos. “O projeto pedagógico tem um conteúdo mínimo do estado, mas passa por adequações”, afirma a diretora, citando como exemplo um adolescente que, aos 17 anos, só agora está sendo alfabetizado.

O conteúdo é desenvolvido em módulos semestrais e, se o interno deixa unidade antes da conclusão, é transferido, já com adequação curricular, para uma escola da rede. As aulas são realizadas pela manhã e à tarde, durante três horas, em salas de aulas que, se não fossem os portões de ferro – que, por sinal, ficam abertos – em nada se diferenciaria de outra escola qualquer.

Todo material é fornecido pelo estado. O detalhe é que, como os alunos não podem levar nada para o alojamento, o material fica nas salas. Não há “dever de casa”.

Experiência única

Entre muros e grades, uma porta de esperança

A diretora Vanessa (de amarelo), ladeada pela coordenadora pedagógica e professores

Há 15 anos servidora do estado, Vanessa vê o trabalho no Degase como um desafio diário. Alguns não resistem. Já houve desistências de professores.

Não é o caso de Edmar Gomes, professor de Língua Portuguesa que atua na Terezinha Barros desde a sua instalação.

- Aqui conhecemos um universo novo. Mesmo dando aula em escola de periferia, no Degase a história é outra, é preciso um diferencial – diz ele, chamando a atenção para o fato de a unidade de Volta Redonda abrigar menores infratores de 26 cidades da região.

Edmar ressalta ainda o fato de a escola e os professores acabarem servindo como um ponto de equilíbrio. Explica que, em vários momentos, eles atuam quase que como psicólogos.

- Muitos vêm para cá com outros membros da família, às vezes o pai e a mãe, presos. Muitas vezes, ouvimos desabafos. Mas não se passa a mão na cabeça, a gente chama a responsabilidade deles.

Entre muros e grades, uma porta de esperança

Sucessos e fracassos são compartilhados pelos professores. Não é raro a escola tomar conhecimento da morte, quase sempre por assassinato, de um ex-aluno, e isso choca. “A gente não conhece eles lá fora e, sim, dentro da escola. Por isso ficamos chocados. Para nós [a morte de um deles], não é algo normal”, comenta Vanessa, apontando a falta de políticas públicas como responsável pela maior parte das reincidências: “Tinha que haver um diferencial para acolhê-los lá fora”.

A diretora, todavia, garante que há exemplos de ex-internos que saíram e atualmente estão na faculdade. “Não são todos, mas é gratificante saber que a gente fez diferença na vida de alguém. Se fosse um só, já teria valido à pena”. (Veja outras fotos na galeria abaixo)

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