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Cidades

Da riqueza à pobreza, a volta por cima da solidariedade

13/03/2019 14:29:21

A vida de José Galvão, de 58 anos, daria um livro. Ou bem mais que um, se for dividida em volumes.

A reportagem a seguir nasceu a partir de outra, sobre o trabalho realizado no Abrigo Municipal Seu Nadim, de Volta Redonda. Um lugar onde se trabalha na tentativa de conseguir a reinserção social de pessoas em situação de rua. E de conseguir também para elas um lugar no mercado de trabalho.

Galvão é um exemplo vivo de alguém que pôde experimentar a roda gigante que é a vida. Foi milionário e morador de rua. Só não perdeu a fé. Conseguiu se restabelecer. Hoje, ele se dedica a ajudar às pessoas, inclusive em situação de rua. Esta semana, durante quase duas horas, ele conversou com a reportagem do FOCO REGIONAL e contou sua história de vida, diante de um diretor do abrigo.

Rico e pobre
Antes dos 40 anos, morando na cidade do Rio de Janeiro, Galvão já estava rico. Muito rico. Ex-bancário, tornou-se empresário. Explorava cursos de informática, idiomas e uma distribuidora de água mineral. Morava num apartamento amplo, com quatro quartos, no Posto 6, em Copacabana. Os filhos eram monitorados por seguranças particulares. Até que veio a primeira reviravolta.

- Depois de rico, eu quebrei – resume Galvão.

Buscou abrigo, com a mulher e três filhos, em Pinheiral. Mas, para sua surpresa, não foi acolhido pelo sogro. Conseguiu alugar uma quitinete. Não houve como pagar por muito tempo. “Passei oito meses sem energia elétrica. Fazia biscates, trabalhei como ajudante de pedreiro”, lembra Galvão.

Sua mulher, Jânia, que tinha quatro domésticas ao seu dispor nos tempos de bonança, trabalhou justamente como empregada doméstica. “É aguerrida, não consigo imaginar a vida sem ela”, elogia o marido. A propósito: segundo ele, sua esposa atualmente ajuda a fazer, numa marcenaria nos fundos de sua casa, camas com palets, que são doadas.

A família acabou vindo para Volta Redonda depois de amargar muitas dificuldades. “Cheguei a dormir nas ruas com a família. Numa noite chuvosa, minha filha ainda foi atropelada. O que me sustentou foi a fé em Deus de que naquilo tudo havia um propósito”, afirma agora.

Recuperação

Galvão começou a dar a volta por cima quando começou a fabricar brindes personalizados. “Eram relógios de parede com o rosto de uma criança da família. Foi quando tudo começou a melhorar. Cheguei a um ponto em que não estava dando conta [de atender as encomendas]. Desta forma, voltei a ter uma renda certa”.

Ele assegura: com o dinheiro que conseguiu foi adiante: fez um curso de corretor de imóveis, tirou carteira do Creci (conselho regional da categoria) e, durante dois anos, diz ter feito excelentes vendas, que lhe renderam comissões excepcionais, suficientes para restabelecer plenamente a família.

Deu baixa na carteira de corretor e hoje se dedica a duas atividades: gravar áudios dos livros religiosos de uma editora sul-coreana e ajudar às pessoas.

Solidário

José Galvão conta que, na melhor fase da riqueza no Rio, já auxiliava os mais necessitados, mas de forma bem reduzida. E admite: era para desencargo de uma consciência pesada por ter tanto dinheiro e ver outros na miséria. “Ajudava a aliviar o sentimento de culpa”, confessa.

Hoje, ele vive numa casa confortável no Conforto, onde tudo – exceto a TV – é reciclado. E ajuda outras pessoas por prazer. Na residência, vivem quatro jovens de comunidades do Rio que estudam na UFF (Universidade Federal Fluminense). Elas não pagam pela estadia ou alimentação. “Nem um centavo”, destaca Galvão, que está alugando outro imóvel onde pretende abrigar mais oito pessoas.

Moradores de rua

Os filhos (um adotivo) se formaram em universidades públicas. São dois advogados (a menina atropelada é um deles) e um geofísico, que mora no exterior.  Os que se formaram em Direito o auxiliam em diversas questões.

Galvão dá uma atenção especial aos moradores de rua. A este público começou a se dedicar quando, já em Volta Redonda, abriu um restaurante do tipo delivery. Preparava quentinhas  para distribuir àqueles que estavam nas ruas. “Não eram sobras”, faz questão de frisar.

Foi assim que conheceu o pessoal do Centro Pop e do abrigo municipal, a quem não poupa elogios. “Eles se dedicam muito ao que fazem. Não é pelo que ganham que, aliás, é pouco”.

Com os moradores de rua, ele foi além. Dono de três carros, garante já ter rodado cerca de 800 mil quilômetros para levar à terra natal migrantes que encontrou em Volta Redonda. “É impossível a gente não se envolver com a história deles”, constatou, ao mesmo tempo em que chegou a outra conclusão. “Se não tivesse passado por tudo o que passei, não seria quem sou hoje. Seria o Galvão antigo. E o antigo era soberbo demais”.

Galvão aluga um estúdio para gravar o texto dos livros do reverendo Paul. C. Jong., editados na Coréia do Sul e distribuídos gratuitamente no mundo todo. Tornou-se responsável pela publicação no Brasil e em todos os países de linga portuguesa. “Ganhei um livro, li e gostei. Pedi para ser representante da editora no Brasil. Não ganho dinheiro com isso”, garante. A página da editora pode ser conferida neste link. 

 

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