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Artigo - Fraternidade e vida: dom e compromisso

18/02/2020 15:44:31

Irmãos e irmãs!

Ao aproximarmo-nos de mais um período quaresmal, nossa Diocese acolhe a Campanha da Fraternidade deste ano cujo tema é Fraternidade e Vida: dom e compromisso, baseando-se em Lc 10,33-34 "Viu, sentiu compaixão e cuidou dele".

Esta parábola, contada por Jesus é uma das mais fascinantes do Evangelho e vai ao encontro de uma pergunta: quem é o próximo? No discorrer da cena se percebe logo que a preocupação maior não é identificar o próximo, pelo contrário, o importante é tornar-se próximo. Que abordagem impressionante. Ainda hoje nos traímos na vida religiosa com pensamentos seletivos e limitadores, no sentido de relativizar uma postura essencialmente cristã, ou seja, fazer o bem sem olhar a quem.

Sabemos que a Campanha da Fraternidade não possui o intuito de sobrepor a riqueza espiritual proposta pela quaresma, com sua mensagem de conversão que se traduz em mudança de vida. Através dos gestos consagrados pela fé - jejum, esmola e oração - renovamos nosso caminhar obediente e fiel ao Mestre Jesus. Faz-se necessário concretizar bem este caminhar de autêntica piedade. Neste aspecto, a Campanha da Fraternidade busca nos inserir em um contexto de abertura do coração para o irmão necessitado e, muitas vezes, tratado com indiferença e preconceito.

A parábola do samaritano nos recorda que uma espiritualidade cristã se não for "samaritana" perde seu sentido e autenticidade a partir do momento que nosso caminhar se torna indiferente e pouco afeito ao cuidado com aquele que, mesmo não conhecendo, precisa de nossa solidariedade.

Nesta parábola JESUS não se preocupa em dar o nome daqueles envolvidos na trama apresentada. Sabemos do ofício de alguns (sacerdote e levita), um samaritano e o anônimo ferido e abandonado. O caminho aqui mencionado pode ser entendido como a nossa trajetória de fé. Os religiosos, talvez ocupados demais com suas preocupações e excessividades ritualísticas, passam ao largo, provavelmente temerosos em não se contaminarem já que o serviço litúrgico exigia, dentre outras coisas, o não contato com um cadáver. Podemos elucubrar que, talvez, o levita e o sacerdote, vendo de  longe aquela pessoa imaginaram estar morto. Ficamos admirados com esta atitude dos dois religiosos e, certamente, imaginamos que agiríamos diferente... será?

'A Campanha da Fraternidade deste ano mostra o quanto, infelizmente, é atual a advertência

contida nela por vivermos ainda em uma sociedade agitada, egoísta e indiferente' 

Uma tentação que ronda toda pessoa religiosa é justamente viver fora da realidade, uma vida desconectada com os acontecimentos, uma certa fuga, ao mesmo tempo, uma atitude soberba e perigosa de se considerar apartado dos pobres mortais, achando-se o mais digno dos demais. Certamente, não é a religião que ensina esta forma de pensar e agir, mas a pessoa humana por demais autocentrada em si mesma que se torna incapaz de enxergar a dor e o sofrimento alheios. Já o samaritano, que como se sabe, não era bem quisto pelos israelitas naquele período específico, também caminhava, mas de uma forma diferente, isto é, demonstrou ser um observador compassivo que o fez aproximar-se daquele ser humano completamente desprotegido. O samaritano não se preocupou com sua etnia, religião, se era digno de ser ajudado ou não, simplesmente dedicou-se àquele estranho, oferecendo seu tempo e generosidade.

Ao escolher esta parábola, a Campanha da Fraternidade deste ano mostra o quanto, infelizmente, é atual a advertência contida nela por vivermos ainda em uma sociedade agitada, egoísta e indiferente onde se faz mais do que urgente suscitar a cultura do encontro, da compaixão e fraternidade.

Hoje percebemos um crescimento perverso da indiferença, cada um cuidando de suas preocupações, que decidem "dar a volta" diante de uma situação incômoda e que preferem continuar seu caminho, ao invés de gastarem tempo, dinheiro e atenção. É preferível seguir adiante deixando para trás a compaixão, assumindo a roupagem carregada de um coração insensível, um olhar cego ao outro que nem sequer consegue emitir um grito de socorro, mas que está ali, precisando de nós? Imaginemos quantos passam pela nossa vida e nada falam, não têm forças para implorar ajuda, mas são especialmente para estes que o Senhor nos pede para ser sal e luz.

Este gesto apressado de passar ao largo é atualizado em toda forma de indiferença e omissão. Vemos hoje o desprezo pela vida com projetos que visam regularizar a eutanásia (suicídio assistido), o aborto de um ser vivente no ventre materno como se fosse uma mera extensão do corpo humano e não uma pessoa única e irrepetível sendo gestada.

'Em nossa região sempre paira sobre nós a grande preocupação ambiental com o ar que respiramos,

com os rios existentes, tão castigados pela incúria e falta de cuidado por parte de nossa população

e das indústrias que jogam seus excedentes sem que o Estado aparentemente pareça se importar'

Temos também os graves problemas sociais que assolam o mundo e nosso país: desemprego, pobreza e fome, violência de todas as formas ceifando a vida de inocentes, o desrespeito ao planeta, nossa casa comum onde as ameaças às nossas florestas, rios, mananciais, fauna põem em risco a nossa própria sobrevivência.

Aqui mesmo em nossa região sempre paira sobre nós a grande preocupação ambiental com o ar que respiramos, com os rios existentes, tão castigados pela incúria e falta de cuidado por parte de nossa população e das indústrias que jogam seus excedentes sem que o Estado aparentemente pareça se importar, preferindo trilhar um caminho pavimentado pelo comprometimento economicista sem olhar as questões  sociais  de  toda ordem, colocando em perigo a saúde da população.

Nós também somos culpados por achar que isso não importa ou por contribuir também com o recrudescimento dos problemas ambientais jogando lixo nas encostas, desmatando e exaurindo, aos poucos, a natureza que Deus nos deu para cuidar e não destruir. Tudo isso deve nos levar a uma séria reflexão.

No entanto, temos sinais de esperança, como aqueles que continuam seu caminho não virando o rosto diante dos problemas que afetam a todos. Em nossa diocese muitos corajosos fiéis e clérigos não desanimam diante dos obstáculos pela promoção humana   e evangelização. São muitas pastorais sociais que atuam com amor e dedicação, indo ao encontro dos abandonados, organizando eventos que procuram conscientizar na busca  de um mundo mais justo e fraterno e que nos recordam a bela face de nossa Igreja Samaritana que não aceita continuar seu caminho indiferente, pois ninguém pode ser deixado para trás e, desta forma, procura romper com a indiferença que assola nosso mundo pragmático, utilitarista e fechado.

Em nosso caminho de fé que haja sempre este olhar atento para aqueles que o Senhor colocar em nossa trajetória e saibamos ser próximos.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo

* Bispo da Diocese Barra do Piraí-Volta Redonda 

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