segunda-feira, 22 julho 2019
Fale Conosco | (24)3343-5229

Colunas

Meio Ambiente

por: Adaucto Lima Neves

Sansão Careca x Pé Grande

16/12/2015 11:27

A água está perdendo sua característica de recurso natural renovável em razão de processos de urbanização predatórios e, às vezes, tolerado pelas autoridades públicas. O Brasil é privilegiado em águas superficiais e possui mais de 12% do volume de água doce do mundo.

Nesta época do ano, enchentes causam a falsa impressão que o recurso hídrico não faltará. Verifica-se que no atendimento às comunidades existe grande distância entre o que se tem e o que é servido, pois 70% moram em lugares que só possuem 13% de recurso hídrico. O Sudeste é o mais vulnerável e sérios problemas estão por vir.

São Paulo ganhou um presente de Natal com o acordo da transposição da água do Rio Paraíba para o sistema Cantareira, com a notícia que poderá tirar água do único manancial que abastece a Região Sudeste e a cidade do Rio de Janeiro.

“Todos os três estados envolvidos não mediram esforços ”, comentou o ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal.

O estado que tem o maior poder financeiro e várias alternativas de captação de águas em suas bacias, vai tirar água do Rio Paraíba pelo fato de ser menos difícil e rápida a execução da obra de engenharia. Mas onde tem pouca água de um lado da bacia, tem também do outro. Quando chove de um lado chove do outro igualmente. São Paulo se acha no direito de "fechar" a caixa d'água que abastece o Rio.

O estado rico degradou o solo/nascentes do seu ambiente. Basta ver o mapa daquela região e ver a situação desértica de seu território. O “Sansão Careca” esta vencendo o “Pé Grande”, que não prevê os efeitos terríveis que produzirá aos mais carentes e vulneráveis, que moram abaixo da sua caixa d'água.

O projeto de transposição do Rio Paraíba do Sul que prevê o desvio de 8 m3/s de águas do Paraíba para as represas de São Paulo foi assinado.

Só que a bacia do Paraíba do Sul, principal fonte de abastecimento do Rio de Janeiro, está secando. Há um efeito sazonal de fartura de água. As mudanças de regras de operação dos reservatórios da bacia do Paraíba farão com que eles armazenem mais água. No papel tudo é bom. E daí? Haverá gastos financeiros e perdas ambientais. O pior já está acontecendo. A conta de água aumentou muito e a escassez hídrica também. O que deveria ser solução irá acabar em tragédia anunciada.

"O problema dessa gente é que quer melhorias às custas de quem trabalha". Tipo de comentário nas redes sociais de caráter individualista, dá a entender que carioca não faz outra coisa além de samba, cerveja e futebol. Em uma coisa eles tem razão: o último está um horror.

Mas, voltando ao tema da água: ledo engano não acreditar nas consequências desta transposição. O que se faz acima arrebenta com quem está embaixo e volta como bumerangue. Há um individualismo que congrega uma competição para acumulação de capital e poder. Na competição os fortes e mais poderosos querem levar vantagem a todo custo e os fracos ficam com as migalhas (ou pedras), com a esperança de possíveis precipitações locais.

No acordo, diz-se que a vazão ficará garantida em 190m3/s. Na realidade estamos em média com 150m3/s atualmente. Os burocratas deveriam cruzar o rio a pé para ver o nível do Paraíba na região Sul Fluminense.

Apesar de muitas pessoas estarem cientes que esse acordo é do Sansão Careca contra o P´[e Grande e que todos os problemas irão agravar gradativamente, existe uma tendência de vê-los isoladamente. Muitas opiniões de especialistas fazem coro com os Sampas (ou Sansão) do problema de falta d'água e ignoram seus vizinhos. Editam relatórios e estudos de prováveis soluções alternativas, enquanto o mesmo governo faz de tudo para encorajar perfuração, escavação e transposição como se essa atividade não gerasse consequências ambientais graves.

 

Há uma ambiguidade muito grande no acordo. Enquanto se discutem aquecimento global e mudanças climáticas como fator ameaçador do ambiente, deixam parte da população com pouca água e sem diluição do esgoto sanitário. Há sintomas de várias rupturas por causa da velocidade de mudança e da degradação. Virão muitas catástrofes naturais e, junto, a crise social, a crise ambiental e a crise financeira.

Nada antes neste pais virá de forma isolada. Os governantes estão frustrando as expectativas de uma nação que prima por desenvolvimento responsável e ético.

Com medidas arbitrárias não chegaremos ao desenvolvimento que tanto precisamos. Preservação e trabalho irão vencer as desigualdades dos estados, mas é preciso entregar verdadeiramente um recurso hídrico de qualidade para os mais pobres. Creio que isso não irá acontecer. A luta é muito desigual, O gigante é poderoso demais. Mas sabemos que tudo que sobe tem que descer. Devido a tamanha discrepância de forças dos líderes, alguns pensam que a cabeleira do "Careca" é mais importante que o sapatinho de cristal do Pezão. Isso não é verdade.

Adaucto Lima Neves é professor e ex-secretário de Meio Ambiente de Barra Mansa e escreve às quartas-feiras

E-mail: adauctoneves@gmail.com


Em foco

Notícias primeiro na sua mão

Primeiro cadastre seu celular ou email para receber as ultimas notícias.

Curta nossa fan page, receba todas as atualizações - Foco Regional