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Vida Digital

por: Frederico Guimarães

Pra que compartilhar mortos?

03/11/2016 11:44

Dando sequência ao meu post de semana passada – Compartilhamento no WhatsApp – resolvi me aprofundar um pouco mais em um tema um pouco polêmico: o compartilhamento de fotos de pessoas mortas na rede.

Você já deve ter aberto seu WhatsApp e se deparado, em alguns grupos, com fotos de acidentes de trânsito, assassinatos e até mesmo imagens de celebridades sem vida. Cada um tem uma reação diferente. Uns abrem, outros excluem antes mesmo de baixá-las e uma parte já sai encaminhando para várias outras pessoas.

Alguns acham isso uma doença, uma obsessão, outros, falta do que fazer. Já a maioria, como eu, acredita ser uma baita falta de respeito.

Você por acaso já se perguntou se é crime compartilhar este tipo de imagem? Qual a reação de um familiar ao ver a foto de um ente querido sendo compartilhada? E como se sentem os socorristas, quando chegam em acidentes e se deparam com dezenas de pessoas buscando o melhor ângulo? Seria esse comportamento a banalização da dignidade e da vida ou apenas uma questão de exibicionismo digital?

Em primeiro lugar, o vilipêndio de cadáver é um crime de desrespeito aos mortos, especificado no artigo 212 do Código Penal Brasileiro. Ou seja, a partir do momento que você menosprezar, rebaixar ou desprezar um cadáver, seja para saciar a curiosidade dos demais, ou na intenção de ridicularizá-lo, há fundamento para que seja configurado crime. Pena: detenção, de um a três anos, e multa.

Ok, digamos que ninguém estava ciente que isso é crime e, agora, algumas pessoas não irão mais fazer isso. Mas por que outras pessoas ainda compartilham esse tipo de coisas? Seria uma doença ou simplesmente querem atenção, o famoso exibicionismo digital?

Fui buscar algumas explicações com minha prima e amiga Magna Carvalho, psicóloga, se existe uma explicação lógica para este tipo de comportamento e se isso se caracteriza, em algum momento, um doença. "Cada um tem um motivo para postar esse tipo de foto. Para alguns, pode ser necessidade de chocar, para outros, uma certa morbidez.  Não vejo, a princípio, como doença, mas como um modo inadequado de se expressar, sem considerar a dor da família da vítima.", explica Magna. 

Falando ainda sobre a exposição da família das vítimas, a psicóloga completa: "A família pode ficar com traumas e a dor da perda ser amplificada pela exposição, pela vergonha ou constrangimento causado pela exposição".

Acredito que não devemos fazer com o próximo o que não gostaríamos que fosse feito conosco. Ser empático, que é tentar compreender sentimentos e emoções, procurando experimentar de forma objetiva e racional o que sente outro indivíduo, nos ajudaria a entender isso.

Vimos o que leva as pessoas a compartilhar essa fotos, mas e a captura dessas imagens? Como isso ocorre em um cenário de destruição e sofrimento? Para saber como isso acontece, conversei com o Luiz Gustavo, que trabalha com emergências há quase 20 anos e em  Atendimento Pré-Hospitalar e Resgate, fazendo parte da equipe de resgate que atua na Rodovia Presidente Dutra. "Frequentemente chegamos a locais de acidente com vítima fatal e encontramos pessoas fotografando e até filmando as vítimas. A nossa maior preocupação nesse momento é com a segurança dessas pessoas. Muitos entram na cena do acidente na busca do ângulo perfeito e se colocam em situação de risco. Num segundo momento, com a preservação da identidade da vítima e o respeito com a pessoa falecida. Mas independente de qualquer sentimento que possamos ter nesse momento, nosso olhar sempre será técnico e não podemos deixar que nada atrapalhe a operação, pois a nossa segurança e de outras pessoas, além da preservação do corpo e da cena, vai depender da nossa conduta neste momento. A nossa missão é prevenir, para que não haja nenhuma intercorrência durante a operação.”, frisa Gustavo.

Ressaltando o que ele diz, "as pessoas acabam se arriscando por um ângulo melhor". A colocação é perfeita, não é preciso dizer muita coisa.

O que posso afirmar é que já compartilhei fotos de pessoas mortas. Foi logo que comprei meu primeiro Smartphone e o aplicativo de troca de mensagem estava na moda. Achava isso o máximo, era novidade, estava com o poder da liberdade de informação e queria compartilhar com exclusividade alguns fatos com meus amigos e familiares. Mas, com o passar do tempo, isso mudou para mim.

Aprendi que compartilhar desgraças, fotos de falecidos e assassinatos, além de ser uma falta de respeito com as vítimas e a família, acabava despertando sensações ruins. Quando compartilhamos coisas ruins, atraímos negatividade para nossas vidas. Vamos tocando a vida e aprendendo algumas lições muito importantes.

Uma pessoa já veio a falecer em meus braços e digo que isso mudou muita coisa em minha vida. Vamos vivendo e aprendendo. Você é o que você compartilha e você recebe o que você envia.

Frederico Guimarães é especialista em marketing digital.

E-mail: frederico@souhashtag.com.br

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